Assassinato do 2º Grau
   
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UNA FURTIVA LACRIMA

 

Voltar 35 anos e escrutinar a memória pode ser fácil para muitos, para mim não é. Não é à toa que um dos meus maiores ídolos na literatura é um memorialista: Pedro Nava. Fico fascinado pela prosa fácil e elegante com que ele apresentava, aos 70 anos, seus anos escolares; seus avós e contemporâneos deles. Tudo em minúcias de revoltar mesmo um cristão que cultive, com esmero, a capacidade de deter a inveja, aonde for que ela se apresente. Então no último post há uma lacuna, que não prejudica muito as conclusões. São as sessões de Umbanda que presenciei dos 12 aos 14 anos.

 

Tenho um irmão que, após um acidente automobilístico, apresentou um sério desequilíbrio mental. Ainda jovem, 20 anos, tinha ataques estranhíssimos. Furiosos alguns e outros de monoideísmo e prostração. Como católica minha mãe primeiro se voltou para N.S.Aparecida, N.S. do Monte Serrat, e não sendo atendida voltou-se para a Umbanda, que era uma febre universal no Brasil na década de 70. Então, devo ter visitado uns dez centros deste tipo ao longo destes dois anos. Tinha um pouco de medo daquela gente esquisita, com roupas brancas rendadas e sobrepostas (as mulheres) e por isto não me interessei pelo fenômeno em si. As músicas eram cativantes e é uma pena que não se preservaram em vídeo os “trabalhos” dos terreiros. O atabaque fazia contraponto com as vozes da Gira, que cantavam para receber caboclos, crianças, baianas, marinheiros, iemanjás, pretos velhos, etc.etc... Cada um com um “ponto” diferente. Melodiosos, bonitos mesmo. Creio que as igrejas evangélicas apressaram o fim desta fase na cultura/religiosidade brasileira. Se para o bem ou para o mal, só Deus sabe! No fim da década de 70, minha mãe se voltaria para as igrejas pentecostais com o mesmo resultado para o meu irmão, ou seja, nenhum! Aliás, foi até mais perigoso o evangelismo irresponsável, que perdura até hoje, do que a Umbanda: alguns convenciam meu irmão que Jesus o tinha curado, com isso ele suspendia os remédios que o mantinham estável e o surto psicótico acabava por levá-lo a internações, coisa que os “santos” nunca fizeram. Se aquilo tinha /tem um caráter verdadeiro não poderia dizer. Talvez sim, em alguns casos, e talvez não, em outros. Hoje eu acredito que a maioria dos transes eram apenas manifestações do inconsciente que se adaptava a um padrão vibratório e respondia à música e ao desejo de se  produzir um fenômeno, no caso uma personagem com forças divinas. Mas, quem sabe, outras foram genuínas. Eu não saberia diferenciar uma da outra.

 

Nesta época foi que aconteceu minha primeira experiência inusitada e não explicada, para mim, pela ciência. Concedo que talvez a Psicologia consiga uma explicação plausível. Mas ser plausível não quer dizer que seja verdadeiro. Tenho por mim que não foi impressão ou um truque do inconsciente e da imaginação.

 

Eu estava na cama e -como muitas e muitas vezes aconteceu- mantinha um diálogo choroso/rancoroso para com Deus, Jesus, anjos. Tudo o que um menino católico homossexual aterrorizado com a situação pessoal, proibido, por si mesmo, de apresentar o problema aos pais, aos irmãos e aos amigos, tinha represado de mágoas e frustrações, se esvaía em lágrimas silenciosas ao me deitar. Nesta noite, num paroxismo mais agudo, eu rezava/pedia/suplicava para que Alguém se compadecesse e me ajudasse. Pois bem, eu deitara de costas e tinha uma das mãos próxima à cintura, chorava dolorosamente quando uma gota morna pingou nesta mão. Do nada, como que vindo do teto, onde não passavam canos e muito menos com água quente. Como se alguém tivesse se compadecido e, sem poderes de intervir, apenas chorava comigo, solidariamente.

 

Eu tenho o fenômeno como genuíno. Não havia jeito de uma lágrima vencer a gravidade e, ainda assim, pular 50 cm. O fato não ajudou muito, mas, pelo menos, eu já não me sentia tão só!



Escrito por Delsio às 03h01
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Prolegômenos, ou......... The Beginning!

 

Não, isto não vai ser um pastiche de algum livro de Stephen King, ou de algum filme como “A Bruxa de Blair”! O título é só para introduzir uma nova perspectiva da minha vida. Saindo um tanto da esfera sexual, eu diria mesmo em sua borda, ou tangenciando esta área, chega uma hora que todos querem ver respondidas perguntas deste tipo: Por que eu, por que isto é assim, por que eu sou assim e não assado!?

 

Eu conhecia a morte desde os 7 anos. Sou do tempo que as pessoas eram veladas em cima de uma mesa ou, na melhor das hipóteses, sobre cavaletes na sala das casas em que viveram. Mesmo assim eu não encasquetava se Deus existe, se a morte é o fim, mas essas perguntas eram respondidas, de qualquer modo, com um “Sim” e um “Não”, respectivamente, sem maiores explicações. Meus pais eram católicos, burocraticamente desleixados quanto à fé. Quando muito, minha mãe observava a Missa de Ramos ano sim, ano não. Eu ignorei totalmente, até os 14 anos, estas especulações. Quando houve meu retraimento perante aos amigos que, a revelia de minha vontade, me inspiravam amores e pulsões homossexuais assustadoras e intransponíveis, acabei com tempo de sobra para procurar por respostas mais elaboradas, mais próximas da verdade.

 

Meu primeiro movimento na área foi ler pesados tomos de filosofia, como Hegel, Montesquieu, Heidegger, Platão, Popper.... Esta ânsia foi um erro crasso de minha parte, o estudo deveria ser levado a efeito em um estágio posterior ao colegial, que não tinha cursado ainda, e demoraria muito até poder completá-lo (Só aconteceu 20 anos mais tarde). Foi um desastre , não entendia; relia, relia e nada passava pela tenebrosa sombra de minha ignorância. Carrego este trauma e esta tristeza de não conseguir entender a Filosofia da maneira que sempre sonhei.

 

A segunda tentativa foi comprar a Revista Planeta e uma série de livros que publicou. Esotéricos, espíritas, budistas e outros. Gostei mais de dois livros da série: “Viagem a Um Mar Desconhecido” de Krishnamurti e o “O Evangelho Segundo O Espiritismo” de Allan Kardec. Do primeiro achei elegante o desvencilhamento da postura de Guru que se esperava de uma personalidade desta área e ainda por cima com este nome: Krishinamurti! Achei a coisa meio que iconoclasta para com os valores orientais. O segundo livro que citei foi editado uns dois meses depois, creio. Ele me impressionou de uma maneira especial. Enquanto todas as representações cristãs se excluíam mutuamente em questões quase idiotas e interpretativas de vírgulas e cenários, de santidades e paternidades, de salvações e perdições, ele simplesmente ditava, flutuando acima do fog, que tais ou quais versões dos fatos evangélicos não tinham a menor importância. Se Cristo era filho do Pai, ou se era filho de José, se Maria concebeu imaculada ou não, era o de menos. O que importava era a mensagem e o que ela poderia despertar no coração dos homens para saírem de suas mesquinhas vidas e abraçarem uma fé, um ideal de convivência e, por fim, de amor ao próximo. Tudo o mais era deixado de lado. Não que não pudessem ser especulados, não que virasse tabu pesquisar esta ou aquela passagem, é que isto deveria ser deixado de fora do campo dogmático. A Moral era alçada ao primeiro plano, o que evitariam cruzadas e intolerâncias. Para se opor a um bordão da Igreja Católica ele o refraseava como “Fora da Caridade Não Há Salvação”, que falcutava a remissão à todos. Sem dízimos, sem pugnas sobre preciosismos e santos escolhidos.

 

Assim comecei a ler sobre o Espiritismo. E li vertiginosamente todos os livros que conseguia por nas mãos sobre o tema, autores excelentes como Leon Denis, Gustavo Geley, Albert de Rochas, Alexandre Aksakof e ensaístas nacionais tão sérios quanto os estrangeiros, tais como Deolindo Amorim, Carlos de Brito Imbassahy, Hermínio C. de Miranda e uma dezena de outros. Esta seqüência e engolfamento total na doutrina espírita não me jogaram, de maneira nenhuma, numa posição de fanatismo ou crença cega. Elas abriam o leque a uma série de possibilidades e deixavam claro que a pesquisa e o estudo eram condições sine-qua-non da liberdade do pensamento. Creio que todos que estudam esta doutrina de maneira sistemática nunca poderão ser intolerantes ou obtusos, querendo impor sua visão sobre qualquer assunto. O livre-arbítrio, a Reforma Íntima são a grande tarefa do Espiritismo, não a aceitação de todo e qualquer oráculo mediúnico. Por isto muito leigo acha que se trata de superstição e primarismo.

 

Ao longo destes houve momentos de puro prazer, ao ler romances psicografados; numa gama enorme de autores: desde a russa Wera Krijanowisk e suas movimentadas, e sangrentas, tramas que envolviam sortilégios, reencarnações, amores e ódios. Seus livros são pomposos. Também eram ditados por um Conde, J.W. Rochester! Mesmo não se acreditando nas palavras do conde, os livros (cerca de 100) são coloridos, atraentes e trazem bastantes lições. Depois vieram Zilda Gama, Ivone A. Pereira, Chico Xavier, Divaldo P. Franco e por fim Zíbia M.Gasparetto, que deu um tom menos formal ao romance psicografado. Quem leu os 4 primeiros e alguns outros da mesma época que eles levará pelo menos uma seqüela para o resto da vida: terá um vocabulário vasto que nunca poderá usar em hipótese alguma , sob pena de ser taxado de anacrônico e pedante. Quando me exalto, por algum motivo, meu vocabulário enlouquece e acabo falando difícil pra burro, por exemplo! Mas chorei, amei e sofri com personagens delicados e complicados à que fui exposto. Tenho um carinho difuso por todos eles, devido a minha memória fraca.

 

Abração!

 

PS.:Este relato foi-me sugerido pela Nina.São dúvidas que assaltam todo mundo e cada um responde diferentemente à elas. Creio que há espaço para todas as linhas de pensamento religiosos ou agnósticos. Sou um gnóstico, por estudar o Espiritismo e “parentes” dele. Tenho duas ou três histórias interessantes que corroboram meu gnosticismo, mas são pessoais e instranferíveis. Vou contá-las, não percam, então, os próximos capítulos! Ô petulância!   



Escrito por Delsio às 04h56
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