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Assassinato do 2º Grau | |||||||||||||
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Entrando Numa Fria - I Pouco antes de deixar o meu “excelente” emprego de mensageiro eu voltei a estudar. Estava preparado para enfrentar o Colegial. Bem, assim me parecia. Como disse antes, de maneira indireta, em um ano eu consegui o diploma do ginásio. Graças ao governo brasileiro que produzia uma renca de diplomados-sem-noção à cada ano com os exames supletivos que eliminavam matérias de 4 anos regulares de uma penada só! Encurtando a história: eu passei em todas as matérias na primeira tentativa. Estava pronto e acabado -em um ano- um estudante para dar com os burros n’água na etapa seguinte! Foi um desastre, mesmo eu tendo ido a um sebo e comprado os livros de matemática e português referentes aos três últimos anos que faltavam. Havia uma barreira intransponível, mesmo porque eu não sei colar. Nunca soube. Nem na faculdade eu consegui, coisa que todo mundo faz na boa! Bem, eu -com 25 anos- ia aos trambolhões mesmo com a rala física e a rala matemática do primeiro colegial, e ainda por cima a turma era noturna. Isto quer dizer muita bagunça e....distração. A bagunça era fácil lidar: evitar o fundo da classe. Agora, a distração (essa praga dos homens!) era difícil de driblar. Eu sentava no meio da fileira de carteiras, sendo que na frente havia o doce Valério, 15 anos, e atrás o Antônio, um bancário da minha idade. O último foi-me apenas um correto amigo, interessado em obter a graduação. Já o Valério era tão bonito, tão suave, que nem todos os esforços que eu pudesse exercer contra meus sentimentos davam resultados. Uma vez no laboratório de Química eu deixei escapar uma palavra que provocou certo choque,mas foi amenizado pelo desvio da galhofa; eu disse a ele em resposta a uma pergunta: - Não sei, coração! Acho que eu fiquei mais surpreendido que ele! Pano rápido. Neste tempo (82/83), era moda “fazer Jazz” como dança. Isto era devido a filmes como “Fama”, “All That Jazz” e..., é claro, eu paguei este mico também! Mais uma frustração total e motivo de vergonha pelo resto da minha vida, mas o professor valia cada centavo daquela hora. Um Nureyev loiro e perfeito, clássico!Não alardeava isto, no entanto. Fazer dança na época equivalia a uma declaração enfática assumindo a homossexualidade! Não era, realmente. Não é agora, mas pra mim era, sem dúvida. Voltando. Nesta época fui chamado pelo recepcionista com o qual trabalhei no Hotel Guarujá Inn, o Ferreira, para um lugar de auxiliar de escritório em uma colônia de férias. Ele gostava do meu trabalho reservado e sério, eu pensava, mas vai ver maquinava algum meio de destituir Lenora me envolvendo com ela, fazendo-a renunciar ao cargo de Gerente Geral, o qual ele era imediatamente subordinado, o que, por fim, acabou acontecendo. Nunca vou saber ao certo. Só sei que ele me conhecia; conhecia minha timidez e insegurança. Eu sabia que ele era capaz de algumas vilezas, mas quem não é?! Na colônia Lenora me cobria de elogios e cuidados. Eles não assustaram de início, mas quando se tornou aparente seu interesse sentimental eu me vi em apuros: não era isso que eu queria; eu tinha certeza, desde os nove anos, que era gay. Além disso, ela era 35 anos mais velha! NO WAY! Escrito por Delsio às 01h38 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Entrando Numa Fria - II
Eu tivera entre os 15 e 25 anos mulheres interessadas em mim, poucas, devido à minha fealdade/timidez, mas todas que tentaram eu driblara. Não queria enganar ninguém, não achava justo. Não iria usar ninguém, nem mesmo para esconder minha homossexualidade que tanto me vexava. Tenho este mesmo sentimento agora, como tinha na época do assédio da gerente. A primeira coisa que fiz foi tentar afirmar-me como gay. Tentei seduzir o Ferreira, que é dez anos mais velho que eu. Abri o jogo com ele sem obter resultado algum. Ele desconversou. Não gostava da fruta; compreendia-me; falava que eu deveria superar isto; procurar mulheres. Não queria me ajudar, neste particular, em nada. O pior é que ele –eu soube onze anos depois- envolveu Lenora no planejamento de minha “redenção” e afastamento do “mundo gay”. Na escola crescia meu amor por Valério. Não via nada de errado em me apaixonar por um menor. Não há, basicamente, nada de errado mesmo! Exceto que é errado e passível de prisão pela sociedade atual. Mesmo que aconteça este arrebatamento de novo comigo não vou cair nesta. Em minha defesa eu poderia afirmar que era tão inexperiente quando aquele garoto, nossa idade mental eram equivalentes. Tanto ele quanto eu nada sabíamos sobre sexo. Provavelmente eu tinha duas experiências a mais que ele, contadas no post “Annus Horribilis”. Ele parecia virgem. Ora, eu também era! Em ambos os sentidos! E Valério era tão lindo, tão espontaneamente encantador que só não apelidei –mentalmente- de Tadzio (personagem de “Morte em Veneza” de Thomaz Mann) porque ele não era de um maravilhoso branco translúcido, como Tadzio, e sim de um esplêndido moreno-canela, como só em brasileiros encontramos. Eu me rendia a esta beleza, mais e mais, a cada dia de aula. Pisava em ovos. Media cada gesto para não assustá-lo com um carinho excessivo suspeito. Evitava o contato direto de olho-a-olho: ele perceberia se eu demorasse mais que alguns segundos, pensava eu! Na colônia a coisa se precipitava de maneira rápida, mas eu estava “ausente”. Eu respondia ao carinho de Lenora apenas por cortesia ou por interesse material que me era oferecido. Eu era pobre! Não quer dizer que seja rico agora -tenho um emprego seguro e não tão mal remunerado- só estou melhor, felizmente para mim, que 50 milhões de brasileiros, infelizmente para eles.Mas se houvesse justiça no mundo eu teria nascido parecido com o Tom Berenger. Um dia isto pode mudar........na próxima encarnação! Mais um pouco e ela cerrou a marcação sobre mim, o que me desesperou mais ainda. Eu amava o Valério! Um amor como poucos. Acima, ainda, do que eu sentira, uma vez, por Oswaldo, que tanto me fizera sofrer e angustiar. Tudo para dar em nada! Eu não estava preparado para mais um NÃO que se aproximava à velocidade da luz, e que só escapava da minha percepção por eu ser muito burro!
Um mês depois de iniciar o segundo semestre eu conversava –embevecido- com Valério no pátio junto a uma parede; a meia-luz; a meia voz; atenção plena. Uma conjugação, um alinhamento fatal para a derrocada de minhas ilusões. Valério, mais uma vez, ouve minha queixa da perseguição de Lenora; falo que o comportamento está dando na vista; falo que ela pretende me levar à São Paulo para ver uma peça de Teatro, que quer ver “acompanhada”. Chega uma hora em que ele me encara e pergunta: - Mas, escuta.Você gosta dela?! O chão foge dos pés. A alma incendeia! Uma frase me escapa, selando o meu destino:- Não.... Valério... Eu amo você! Ele se retrai e procura alguma estabilidade, encostando-se à parede! Lívido -tanto quanto pode ficar lívido um moreno daqueles- ele tem apenas forças para emudecer totalmente. Nada responde. Eu me retiro totalmente vencido, sem esperar disso um final feliz! Afinal não sou uma linda donzela, apesar de ele ser um príncipe belíssimo! Ele não me procura para conversar por muitos dias. Quando volta a falar comigo finge não ter ouvido o que ouviu. Tudo se torna sombrio em minha volta. Suicídio não era uma opção, tudo em que eu acreditava condenava isto. Minha tristeza e angústia é notória. Lenora percebe, creio. O fato estimula seus sentimentos mais ainda. Senso de oportunidade? Talvez! Um dia ela me conduz aos seus aposentos; abre o jogo e diz que me ama loucamente. Eu digo, para mim mesmo: -What the hell! O que eu tenho mais a perder?! Vou nessa! Que roubada, meu Deus, que roubada!
Escrito por Delsio às 01h37 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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