Serra não vai processar Ricardo Berzoini? Eu processaria. Antes, como sempre, uma digressão, que é o meu jeito de fazer os petralhas mudarem de blog — eles já têm um em que dão o tom; não precisam do meu. Na sua autobriografia, Si le Grain ne Meurt, André Gide — que, infelizmente, anda esquecido na França, aqui e no mundo — narra um encontro que teve com Oscar Wilde no Marrocos. Os dois tinham ido lá em busca da mesma coisa: jovens árabes. Gide, um protestante puritano, ainda era virgem. Wilde já tinha enfiado o pé na jaca, dentre outras coisas. Ele arruma alguns garotões com “olhos de gazela” para Gide. Depois a minha memória se embaralha, mas acho que foi ali que o francês conheceu “os frutos da terra”. Mesmo despido de moralismo ao narrar as lembranças, Gide registra o prazer que Wilde sentia com seu constrangimento. E emenda qualquer coisa assim: “A maior vitória de um pervertido é assistir à queda de um puro”. Se não é isso, é quase isso. Se a frase não for de Gide, então que seja minha, pronto. Gostei dela. Volto ao meu burocrata soviético predileto: Berzoini. Como o PT está se borrando de medo da CPI dos Sangussugas, o homem veio hoje a público dizer que Serra está sendo “poupado” pela imprensa. Poupado por quê? Quando Humberto Costa assumiu, havia ambulâncias compradas e empenhos já decididos. Lula suspendeu os pagamentos. O dono da empresa quis saber como poderia receber. E aí que entra a quadrilha. A maior prova de honestidade da gestão anterior do Ministério da Saúde, a de Serra, está justamente no fato de que os pagamentos aguardavam o trâmite normal. Em momento nenhum o empresário Luiz Antonio Vedoim citou a gestão do tucano na Saúde. Berzoini fala porque sabe que dá título na imprensa, cria ruído, verdade e mentira se misturam. Fala porque adoraria assistir “à queda de um puro”. Só que há um pequeno problema aí: Gide e Wilde gostavam da mesma coisa. Serra e Humberto Costa são feitos de naturezas distintas.
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