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Assassinato do 2º Grau | |||||||||||||
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Onze anos, mais esta noite. Em 1995 eu estava me despedindo do Guarujá, pois havia passado -com real e inesperada ajuda de meu Anjo da Guarda encarnado, o Valério!- em quinto lugar em um concurso público de Bertioga realizado no ano anterior. Já passava do meio de uma tarde de julho, ou agosto, e voltava da Vila Lígia onde moravam meus irmãos e também o Valério. Ele me vê atravessando a rua e diminui a velocidade para me cumprimentar. Faço sinal para ele parar. Queria trocar algumas palavras de agradecimento -e contida veneração- por ele existir, só isso. Foi a última vez que o vi! Mas ele me alimenta até hoje, acreditem. Não só de pão, mas de uma beleza, de uma pureza que jamais teve par e suspeito que nunca terá.. Todo o imbróglio que Valério, involuntária e inocentemente, acabou por co-protagonizar entre mim e Lenora estava na reta final para a dissolução: por exaustão e desespero malsão de minha parte. Eu passava dias sem alegria, sem forças até para reclamar. Doenças psicossomáticas se materializavam, se tornavam reais pela própria dinâmica da depressão e de seu natural efeito sobre o sistema imunológico. Nada de Lenora se aventurar a perguntar o que estava acontecendo. Ela não era besta de ver confirmada –na lata- a razão de me ter ao seu lado. Simplesmente não ousava um: - O que está acontecendo? Por que a melancolia? Por que a fragilidade?! Por que a apatia geral?! Ela sabia desde o início que eu era gay. Isto não importava para ela, nunca importou! A companhia e o sexo falavam mais alto do que qualquer escrúpulo. A solidão seria um preço muito alto para ela. Não estou condenando-a. Não sou inocente tampouco, simplesmente era assim. Voltando ao Valério e ,desta vez, ao final de 1983, quando tudo havia se precipitado totalmente em reverso à minha vontade. Lenora pressionara e eu cedera. O colegial se revelara pesado para um quinto-anista do 1º grau. Eu não iria ser “promovido” na escola e fora mandado embora do serviço pela ligação incorreta com a gerente. Pra piorar ela, em mais um ataque de estupidez, se demitiu em “solidariedade” à minha demissão. Uma comédia de erros, se não fosse trágico! Então.........Valério adoece.. - Meu Deus,....o que mais agora ?! eu pensava aflito. Felizmente era apenas uma apendicite que foi removida no mesmo dia, com um par de dias de internação. No leito pós-operatório ele sorriu ao me ver entrar. Não era nada, tudo ocorreu nos conformes. Sua mãe - uma pessoa muito simples -, que estava do outro lado da cama, esboçou um sorriso cansado. Eu me aproximei mais amarrado que o Diabo numa sessão de descarrego do próprio Bispo Macedo. Até onde mostrar minha apreensão e meu amor?! Aonde encontrar as balizas do apropriado?! A escapatória foi proferir alguns chavões salvadores e brincar com a situação. Só na hora de se despedir que ouso um gesto. Passo a mão nos cabelos negro-graúna, que lhe caem na testa, arrumando-os : -Fica bom logo, muleque! Foi a primeira e única vez que o toquei. Eu amo você, Valério! Escrito por Delsio às 20h24 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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