Assassinato do 2º Grau
   
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A Penúltima Vez Que Vi Paris!  -  I 

 

 

Eu ficara desempregado por quase um ano e minhas economias estavam se esgotando. Havia deixado isto acontecer  por covardia. Eu tinha um plano. Não queria ser o responsável pela frase que selasse minha separação com Lenora. Teria de partir dela abandonar a relação. Todos os quase 11 anos da relação, que duraria mais um ano ainda, eu tinha sido um marido exemplar. Nenhuma traição no currículo! Não me orgulho disso, por incrível que pareça, não digo isto para amealhar simpatia. Não era uma extrema moralidade que me impedia: eu não tinha jogo de cintura, simplesmente. Nunca soube mentir, apesar de viver uma mentira. Só me fechava ao mundo exterior, exceto trabalhar. Por isso , quando me separei tive dificuldades em todo tipo de relacionamento, o que reflete até hoje, pois jamais me adaptei à sociedade de novo. Vivo uma espécie de auto-clausura. Minha janela para o mundo é o Micro, nele eu atinjo o Macro. Ou penso atingir. Não estou clamando por piedade aqui, é assim que é. Perdi certas chaves de simples conversação/interação e não as encontrei mais.

 

Voltando. Meu intento era que ela se desapegasse –eu temia uma reação irracional e de choque de Lenora- aos poucos de mim. Ao fim de nove anos de coexistência eu estava muito debilitado, com alergias e uma astenia até para brigar ou apenas discordar de minha companheira. Meu comportamento sombrio e depressivo se acentuava e com eles as doenças, psicossomáticas ou não! Aí, como já contei antes, eu informei secamente: - Eu não quero mais ter relações sexuais com você, Lenora.

O mundo acabou para Lenora! Ela ficou possessa e inconformada. Minha vizinha soube, também minha mãe, irmãos, cunhadas. Enfim, faltou apenas publicar no "Diário da Cidade" que eu não “a procurava mais”. Tudo isto com o intuito de me vexar e ela voltar a ter o que queria e, principalmente, reverter a rota da separação que se desenhava. A solidão tende a cometer muitos desatinos, quando não a aceitamos!

 

Ao fim de um ano, de “separação de corpos”, Lenora joga a toalha. Está se mudando para São Paulo, assim que os proprietários –minha cunhada e esposo- do apartamento conseguirem vendê-lo, ela informa com um muxoxo. Eu, contendo a satisfação e o alívio, disse , muito protocolarmente, que ela fizesse o melhor para si.

 

Nessas alturas, eu já havia me empregado de novo em um cargo menor do que eu tinha deixado no Flat anterior,  de Chefe da Recepção; eu, já desesperado, implorei pelo emprego e fui aceito para ser Recepcionista do Flat Capitânia Varam, um grande condomínio.

Como o dinheiro era muito pouco eu passei a me interessar por concursos. Até que eu tive sorte nas colocações -dentro do número de vagas- da minha primeira tentativa, mas eles nunca me chamaram. Até que fiz um para Escrivão da Polícia Civil! Beleza!

Primeira fase, escrita, 200 perguntas: 1º Lugar!

Segunda fase, datilografia (ainda existia isto em 94!): 1º Lugar!

Terceira fase, Prova Oral..........

Aí a coisa entornou! Meus problemas psicológicos com autoridades –qualquer autoridade, seja um grau acima de mim na hierarquia- que se aproximando dentro de um raio de dois metros, me faz perder o rebolado! Sempre foi assim. Não me preparei -que estúpido!- para essa contingência.  Sempre trabalhei com extrema naturalidade fora de supervisão, com um mínimo de erros se confiado a mim mesmo! Eu errei boa parte das perguntas de Geografia e História, já em Matemática o bloqueio me fez errar uma simples equação de 1º Grau! Um desastre! 



Escrito por Delsio às 02h45
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A Penúltima Vez Que Vi Paris!  -  II 

 

 

 

Bem, exatamente neste dia fatídico, que começou para mim às 5 horas da manhã com uma das maiores chuvas torrenciais de muitos e muitos anos na minha região, eu ainda tinha um outro concurso a prestar nesse dilúvio, sendo que o local deste distava 60 quilômetros daquela minha estrondosa derrocada.

 

A prova era –graças a Deus- à tarde e mal deu para eu passar em casa e comer alguma coisa. Eu estava totalmente desanimado, inconformado por não ter me preparado mais; por ter perdido uma vaga de emprego estável quando faltava tão pouco! Batido; revoltado comigo mesmo! Fiz a prova escrita e ao sair da sala percebi que não tinha atingido nem 80% de minha capacidade nas respostas. Tudo se somou. E a depressão não teve trabalho nenhum em se instalar!

 

Aguardei com ansiedade o resultado do teste na Prefeitura de Bertioga. Da Polícia Civil eu tinha certeza que fracassara, mas no de Bertioga tinha uma leve esperança. E consegui! Lá vai o gajo aqui para o 2° teste. Datilografia. Também não fui mal neste, nem excelente tampouco! O bastante para a última fase, que era uma entrevista com um psicólogo, ou poderia ter sido um estagiário de Psicologia, não saberia dizer! A pergunta era: - Eu vou suportar o olhar do examinador e suas terríveis –para mim- perguntas?! 

 

A partir daí  o fator Destino, ou Anjo da Guarda, ou Providência Divina, começa a agir! Não estava muito lá bem colocado, eu suponho, por todos os golpes que havia sofrido naqueles dias. Eu concorria com outros 400 candidatos para 38 vagas. Não via muitas chances de conseguir colocação.

 

Mas lá estou eu em frente ao Colégio Belegarde, esfregando as mãos frias. Esperando a chamada do meu grupo para a entrevista. De repente olho para o lado e há dois metros de mim está Valério! Ausente também, até então, de minha presença. Esperava ele a esposa, que acabara de ser chamada para os testes! Luz da minha vida! Chama eterna a me aquecer! Coração adorado! Anjo Moreno encarnado!  Coletem todos os chavões aí, por favor! Os mais lindos -daqueles de matar diabéticos de overdose!- que puderem encontrar e me emprestem...! 

 

Já disse aqui, Valério é uma das almas mais puras que já conheci. Vê-se pelo branco sorriso largo, mas comedido. Vê-se pela mansidão e graça de seu andar; uma pele, morenaça, que exsuda bondade. Uma das pessoas mais lindas que já vi! Juro! E ele, em sua bondade santa, passa a conversar distraidamente comigo, cujo nervosismo era visível....no começo! Aos 5 minutos de conversa tudo o mais, para mim, era irrelevante. Teste, que teste?! Ele me falava de seu emprego excelente na Dow Química e de seus dois anos de casado! Pouco ou nada retive. Eu não estava, exatamente, neste mundo, entendem?! Aos 15 minutos -acredito eu!- a emoção começou a transbordar, e eu falei de chofre – Valério, eu ainda te amo. Isto não vai desaparecer de mim, eu sei! Ele me devolve um sorriso casto, sem constrangimento. E voltamos a conversar amenidades, pontuadas com a reiteração de minha afirmação anterior, recebidas sempre com generosidade, que vinha da comiseração; de sua alma elevada ou de algum bem inerente à classe de arcanjos de onde ele saiu.... Só sei que ele suportou minhas juras sem exasperação, sem a urgência no olhar que percebemos quando somos repelidos! Depois de quatro ou cinco “Eu Amo você!” sou chamado para um estágio no céu: A Entrevista. Só sei que eu estava tão banhado pela luz emprestada do Valério que tudo transcorreu na maior serenidade e empatia com a psicóloga!

 

O resultado disso foi o quinto lugar no concurso de Oficial Administrativo da Prefeitura de Bertioga do ano de 1994!

 

Fui salvo pelo Amor! Que não vou perder, talvez por nunca tê-lo exatamente ganho! Ele sempre esteve comigo, antes mesmo de conhecê-lo. E ele se chama Valério de Souza. Seu nome verdadeiro! Um anjo que deu sentido a minha vida!

 

Abração à todos!   

 

 

PS.: Acreditem, Deus existe e Anjos também!

 



Escrito por Delsio às 02h44
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